O futuro do combustível nuclear no Brasil é um tema crucial especialmente à luz do Plano Nacional de Energia 2055, que projeta uma ampliação significativa da capacidade de geração nuclear. A pergunta central se torna: como gerenciar o combustível nuclear usado após seu ciclo em reatores nucleares? Esta questão é vital não apenas para a eficácia econômica das usinas, mas também para a proteção ambiental e a gestão responsável dos resíduos nucleares.
Quando falamos do combustível nuclear, logo surge a preocupação com o que acontece após seu uso nos reatores. O combustível irradiado, que saiu do núcleo do reator, é altamente radioativo e gera calor, tornando necessária uma abordagem cuidadosa em seu manejo. Inicialmente, este combustível é armazenado em piscinas de resfriamento, onde a sua radioatividade e temperatura diminuem ao longo dos anos. Após esse resfriamento inicial, ele pode ser armazenado em contêineres de concreto dentro da própria usina, como é o caso da usina nuclear de Angra.
A etapa seguinte é o isolamento profundo desse combustível em repositórios geológicos. Essa solução ainda está em desenvolvimento globalmente, mas países como Finlândia e Suécia estão avançando para a implementação de suas instalações. O repositório finlandês, por exemplo, deve iniciar operações em breve, enquanto a Suécia tem planos para 2030.
A importância do reprocessamento
É essencial compreender que o combustível nuclear usado não é um resíduo que perdeu totalmente sua utilidade. Nos reatores modernos, a maior parte do urânio permanece inexplorada, mesmo após seu uso. No momento em que o combustível é descartado, ainda cerca de 96% dele é urânio, enquanto aproximadamente 1% é plutônio, que também pode ser reutilizado. Essa realidade abre a porta para o conceito de reprocessamento do combustível nuclear usado.
O reprocessamento é uma alternativa viável ao armazenamento a longo prazo e consiste na separação dos componentes do combustível utilizado. Isso possibilita a extração de urânio e plutônio que podem ser reinseridos no ciclo do combustível nuclear. Assim, ao invés de um modelo linear de manejo, abre-se a possibilidade de um ciclo mais fechado onde parte dos materiais é reutilizada, reduzindo o volume de resíduos a serem tratados como rejeitos finais.
A França é um exemplo notável de país que implementa com sucesso essa tecnologia, conseguindo reduzir em até cinco vezes o volume de rejeitos de alta atividade. Este método também diminui a toxicidade dos resíduos, ao mesmo tempo que garante uma economia significativa de urânio natural ao reintegrar esses materiais ao ciclo.
A abordagem russa: reciclagem avançada
A Rússia se destaca na reciclagem de combustível nuclear, extraindo não apenas urânio e plutônio, mas também actinídeos menores, que influenciam a atividade de calor dos resíduos. Esses elementos passam por processos que permitem sua transmutação em elementos menos perigosos. A Rosatom, empresa estatal, já está em uma etapa avançada de desenvolvimento de reatores que incorporam esse ciclo fechado de combustível. Com isso, a Rússia tem sinalizado um modelo de economia circular para a energia nuclear que pode inspirar outros países.
Na usina nuclear de Beloyarsk, por exemplo, projetos de reatores rápidos estão sendo desenvolvidos, enquanto um novo complexo em Tomsk está criando um sistema integrado onde o combustível é fabricado, usado e reprocessado em um único local. Isso representa um avanço considerável no conceito de energia nuclear sustentável e segura.
O que isso significa para o Brasil?
Se o Brasil deseja expandir sua capacidade nuclear, é essencial revisar as opções para o gerenciamento do combustível usado. O país pode optar por continuar com o modelo atual de armazenamento, explorar a disposição geológica, ou até mesmo avaliar o reprocessamento, com base nas experiências internacionais. É vital começar esse diálogo agora, considerando a especificidade do programa nuclear brasileiro.
Para garantir a confiança pública e a eficácia operacional, o Brasil precisará decidir qual abordagem deseja seguir. Um modelo linear não é favorável a longo prazo; em vez disso, a ideia de um ciclo fechado, onde os materiais são retrabalhados e reutilizados, pode oferecer uma solução mais sólida e sustentável. Incorporar essas questões ao planejamento estratégico assegurará que o futuro programa nuclear do Brasil seja não apenas robusto, mas também ecologicamente responsável.
*Ivan Dybov, diretor da Rosatom América Latina
