Uma rocha com padrões intrigantes, que podem indicar a presença de vida em Marte, foi coletada pelo rover Perseverance da NASA. A amostra, denominada Sapphire Canyon, foi extraída de afloramentos rochosos nas bordas do Neretva Vallis, um antigo vale que, há mais de 3 bilhões de anos, era alimentado por rios que desaguavam em um lago na Cratera Jezero.
O rover Perseverance pousou no leito seco deste lago em fevereiro de 2021, com a missão de encontrar rochas que foram criadas ou modificadas pela água no passado. O objetivo é que essas rochas possam guardar vestígios de vida antiga em Marte.
Membros da equipe científica do Perseverance expressaram entusiasmo ao afirmar que a amostra do Sapphire Canyon, do tamanho de um bastão de giz, representa exatamente o que eles esperavam encontrar. “Acho que esta é a primeira vez que encontramos algo que se qualifica como uma ‘bioassinatura potencial’ em Marte”, comentou Adrian Broz, membro da equipe científica e pesquisador no Laboratório de Processos de Superfície Planetária da Universidade Purdue.
Entretanto, o caminho para trazer essa amostra de volta à Terra ainda é incerto. O programa de Retorno de Amostras, uma colaboração entre a NASA e a Agência Espacial Europeia, tem enfrentado desafios financeiros e complexidade técnica. Após enormes investimentos, o programa foi suspenso para uma nova avaliação.
A NASA afirmou que está avaliando opções mais viáveis economicamente para o retorno das amostras. “Estamos explorando abordagens mais simples e acessíveis do que o plano original de Retorno de Amostras de Marte”, destacou a agência em um comunicado.
Embora a amostra do Sapphire Canyon levante esperanças sobre a existência de vida microbiana antiga em Marte, a Dra. Briony Horgan, professora da Universidade Purdue, enfatizou que os cientistas só poderão aprender muito à distância. “Podemos continuar realizando esses estudos e obtendo pistas, mas nunca saberemos com certeza até recebermos as amostras de volta.”
O rover, que custou cerca de 2,4 bilhões de dólares, não possui os instrumentos necessários para análises profundas e complexas. Essas ferramentas foram projetadas apenas para realizar um reconhecimento prévio e selecionar amostras dignas de estudo.
A primeira solicitação orçamentária da NASA para um programa de retorno de amostras remonta a 1978, logo após as missões Viking. Isso demonstra o longo interesse da comunidade científica em estudar Marte em busca de sinais de vida.
As bioassinaturas em Marte
A amostra do Sapphire Canyon é considerada uma descoberta promissora devido à sua aparência. Na Terra, marcas semelhantes indicam a presença de atividade microbiana. “Esses pontos se formam em solos e sedimentos onde a matéria orgânica é digerida por micróbios”, explicou Broz, coautor de um estudo recente sobre a amostra.
Em julho de 2024, o Perseverance perfurou a amostra da rocha chamada Cheyava Falls, onde pontos de reação foram observados em folhelhos argilosos. Contudo, para determinar se essas características resultaram da presença de vida ou de processos não biológicos, as amostras precisam ser trazidas à Terra para análises mais rigorosas.
Um estudo do meteorito Allan Hills 84001, encontrado na Antártida, ensinou aos cientistas que é desafiador confirmar a presença de vida apenas por análises em laboratório após a coleta. Várias interpretações sobre as marcas no meteorito levaram a conclusões erradas sobre a vida antiga.
O futuro do programa de Retorno de Amostras
O conceito original para o Retorno de Amostras de Marte previu várias missões para veilige amostras. Um módulo de pouso deveria coletar e armazenar as amostras, que seriam enviadas à Terra. No entanto, com o tempo, a complexidade e os custos do projeto aumentaram drasticamente, levando à reavaliação do programa.
A NASA gastou cerca de 2,5 bilhões de dólares até o atual cancelamento do programa. No entanto, a possibilidade de um retorno futuro das amostras ainda persiste. O administrador da NASA, Jared Isaacman, afirmou que acredita que a coleta de amostras pode fazer parte de descobertas científicas fundamentais para a humanidade.
Embora o programa original tenha sido cancelado, algumas empresas, como a Lockheed Martin, estão se comprometendo em trabalhar em novas soluções para trazer as amostras do Perseverance. Uma proposta envolve uma missão de custo fixo e menos complexa que poderia trazer as 30 amostras de volta até 2037.
A corrida espacial e as ambições internacionais
Enquanto a NASA avalia suas opções, outros países, como a China, estão avançando. A missão Tianwen-3 da China, prevista para 2028, planeja coletar amostras de Marte, com abordagens que podem se mostrar menos complexas do que o projeto original da NASA.
Os cientistas chineses já identificaram locais de pouso ricos em água líquida, essenciais para encontrar indícios de vida antiga. O seu enfoque especial nas rochas de antigos leitos de lagos pode trazer novas informações diferentes das que o Perseverance pretende capturar.
Isso levanta questões sobre a competitividade no campo da exploração espacial e o potencial de cada missão para impactar nosso entendimento sobre a vida fora da Terra. As amostras de Marte podem responder a perguntas fundamentais sobre a origem da vida em nosso sistema solar.
A ciência continua esperando que, independentemente de quem primeiro coletar os dados, as informações obtidas sobre Marte poderão contribuir de maneira significativa para a nossa compreensão do universo e da vida.



