Distante dos grandes centros e cercado por rios, o interior do Amazonas sempre conviveu com uma energia frágil. A Âmbar Energia, que assumiu a distribuição no Estado em abril de 2026, tenta mudar esse quadro com uma combinação de duas frentes: produzir energia mais perto de quem consome e levar os materiais de manutenção antes que a seca feche os caminhos.
A meta é reverter os índices desastrosos de qualidade registrados pela Amazonas Energia, antiga concessionária, na gestão de Orsine Rufino de Oliveira.
Geração no lugar certo
Em redes urbanas densas, uma falha costuma ter rotas alternativas. No Amazonas, um único problema em uma linha de transmissão ou distribuição pode afetar uma região inteira. Por isso, a empresa aposta em usinas instaladas junto à carga, que reduzem a dependência de um só caminho de fornecimento.
Manacapuru é o caso mais recente. A Âmbar instalou ali uma termelétrica de 5 MW para reforçar o fornecimento no horário de maior consumo. Segundo a empresa, a medida criou uma margem de segurança para o período entre 18h e 23h, quando cerca de 10% da população poderia ter interrupções diárias.
A estratégia vem de antes. Em 2024, ainda sem a concessão da distribuição, a Âmbar comprou da Eletrobras um conjunto de usinas termelétricas ligadas aos sistemas isolados, com unidades em Anamã, Anori, Caapiranga e Codajás. Para 23 comunidades, estão previstos sistemas híbridos que juntam térmica, energia solar e baterias.
Por que tantas cidades são isoladas
Muitos municípios amazonenses ainda não estão ligados ao Sistema Interligado Nacional. Eles dependem de usinas próprias, abastecidas com combustível que chega de barco. Quando a interligação acontece, a mudança é grande: Parintins, conectada em 2023, pôde desligar a usina térmica a diesel que a atendia.
Operação Vazante
Enquanto a conexão não chega a todos, o transporte segue essencial. Com a Operação Vazante, iniciada em maio, a concessionária afirma ter levado cerca de 1.350 toneladas de postes, transformadores, cabos, cruzetas e peças aos 61 municípios e às nove calhas de rios do Estado. Uma balsa saiu de Manaus em 30 de maio para as calhas do Juruá e do Japurá, e mais de 15 viagens de balsas e ferry boats foram realizadas.
O cronograma acompanha os rios. Equipes monitoram diariamente o nível das águas e o acesso aos portos para antecipar entregas e buscar rotas alternativas. Centenas de profissionais foram mobilizados, e as ações preventivas foram combinadas com a Defesa Civil do Amazonas.
Rede reforçada e parceria com prefeituras
Em Humaitá, um plano acompanhado pela Defensoria Pública prevê a substituição de 39 postes e 262 cruzetas, o reforço de 34 quilômetros de rede, a limpeza da vegetação perto da fiação e a ampliação da equipe rural. A Âmbar também diz ter se reunido com 38 prefeitos e firmado 20 acordos com municípios para organizar prioridades e intervenções.
R$ 5,5 bilhões até 2031
A geração descentralizada não substitui as obras grandes. O plano da empresa soma R$ 5,5 bilhões em investimentos até 2031, com R$ 3,9 bilhões próprios, para expansão e revitalização da rede, subestações, retomada do Luz para Todos, troca de equipamentos e monitoramento digital.
Com medidores inteligentes, sensores e automação, a concessionária pretende enxergar a rede à distância e localizar falhas antes de despachar equipes. A tecnologia também deve ajudar a enfrentar as perdas: a Âmbar estima que cerca de 44% da energia injetada não seja faturada, principalmente por desvios e ligações clandestinas, um número da própria empresa que não se confunde com os indicadores regulatórios da ANEEL.
