A relação entre inteligência artificial e inflação tem sido objeto de debate recente, especialmente com as novas análises apresentadas por economistas renomados. Apesar de a IA aumentar a produtividade, isso não necessariamente implica uma redução nos índices inflacionários. Silvana Tenreyro, economista-chefe do FMI, compartilhou suas observações sobre este fenômeno em uma pesquisa realizada pela equipe do Banco da Inglaterra.
O impacto ambíguo da produtividade na inflação
Tradicionalmente, uma elevação na produtividade econômica, que consiste em produzir mais utilizando a mesma quantidade de insumos, deveria resultar em uma diminuição dos preços. No entanto, Tenreyro, em colaboração com Jenny Chan e Ludovica Ambrosino, enfatiza que o efeito sobre a inflação decorrente dos ganhos de produtividade é complexo e pode variar bastante.
Segundo os economistas, tanto os investimentos empresariais quanto os gastos das famílias têm o potencial de se antecipar aos ganhos reais de produtividade que a IA prometeu oferecer. Isso é especialmente pertinente no contexto atual, onde o investimento em infraestrutura de IA pode não refletir melhorias imediatas na capacidade produtiva.
Demandas antecipadas e suas consequências econômicas
A elevada demanda por investimentos, ou gastos consumistas que figuram como uma aposta em ganhos futuros decorrentes da IA, pode gerenciar antes que a economia experimente as melhorias na produtividade esperadas. Quando isso ocorre, é possível que a oferta comece a sofrer restrições, resultando em um aumento da inflação. Essa dinâmica pode também obrigar bancos centrais a implementarem taxas de juros mais altas, a fim de conter a alta de preços e manter a estabilidade econômica.
Um exemplo claro dessa situação é a recente escalada dos preços da memória de computador e dos chips gráficos. Esse aumento é impulsionado pela alta demanda dos centros de dados, o que eleva o custo de produtos eletrônicos como smartphones e laptops.
Ganhos de produtividade: bens exportados versus serviços internos
A pesquisa também destacou um fator fundamental: o impacto dos ganhos de produtividade na inflação pode variar de acordo com se esses ganhos afetam predominantemente bens exportados ou serviços produzidos internamente. Quando os ganhos de produtividade ocorrem principalmente no setor de serviços, eles tendem a contribuir para uma redução na inflação interna.
Por outro lado, quando se relacionam com bens exportados, existe um potencial de aumento nos salários no mercado interno. Isso, por sua vez, pode resultar em uma maior demanda por serviços que, em algumas situações, enfrenta ofertas restritas. Essa dinâmica pode gerar pressões inflacionárias em vez de aliviá-las.
A pesquisa foi publicada no blog “Bank Underground” do Banco da Inglaterra, onde funcionários do banco têm a liberdade de compartilhar opiniões que não necessariamente concordam com a visão oficial da instituição. Essa discussão meritória oferece uma valiosa perspectiva sobre como a IA pode impactar o cenário econômico mundial.
Tenreyro, que foi membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra de 2017 a 2023, contribuiu com o artigo na qualidade de professora da London School of Economics, trazendo um olhar acadêmico a questões que afetam diretamente a economia global e as políticas monetárias.


