Brasil projeta maior importação de trigo para atender demanda crescente

Brasil projeta maior importação de trigo para atender demanda crescente

A importação de trigo pelo Brasil para a safra 2026/27, que começou neste mês, está prevista para atingir 7,103 milhões de toneladas, marcando o maior volume em quase duas décadas. Este aumento é mais de 20% superior ao ciclo anterior e é consequência de uma queda na produção nacional, conforme estimativas divulgadas pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Essa previsão representa uma alta de quase 4% em relação às projeções feitas pela Conab em julho. Se confirmada, será a maior quantidade importada pelo Brasil desde a safra 2006/07, quando foram compradas 7,164 milhões de toneladas, estabelecendo um recorde importante.

O Brasil, reconhecido como um dos principais importadores de trigo do mundo, tem a Argentina como seu fornecedor principal. Nações do Mercosul, como Paraguai e Uruguai, também participam no fornecimento. Além disso, importações de países do Hemisfério Norte, como a Rússia, estão sendo consideradas importantes para o segundo semestre, de acordo com análises de especialistas no setor.

Impacto da Produção Nacional

Recentemente, a Conab revisou sua estimativa para a safra nacional de trigo de 2026, agora estipulada em 5,8 milhões de toneladas. Essa redução ocorre em um momento onde a área plantada apresentou uma retração de 20,4%. Segundo a estatal, essa diminuição é resultado do baixo investimento dos produtores e das previsões de condições climáticas desfavoráveis.

Os produtores dos estados do Rio Grande do Sul e Paraná, que são os maiores responsáveis pela produção de trigo no Brasil, também consideraram as possíveis consequências de um fenômeno El Niño forte durante a decisão sobre o plantio. Este fenômeno é conhecido por provocar chuvas excessivas na região, o que pode prejudicar a qualidade e a produtividade da colheita.

Alternativas de Fornecimento

As importações de trigo pelo Brasil nesta nova safra devem concentrar-se novamente na Argentina, reconhecida como uma das maiores exportadoras globais. A expectativa é que o trigo argentino da safra 2026/27 comece a chegar em dezembro. Isso se dá especialmente porque os moinhos brasileiros expressaram insatisfação com a qualidade dos grãos da safra anterior, o que resultou em uma redução das importações anteriores.

Uma alternativa para suprir a demanda no segundo semestre pode ser a Rússia, que é o maior exportador mundial de trigo. No primeiro semestre, o Brasil já importou 170 mil toneladas da Rússia, um movimento que não ocorreu em 2025, mostrando um interesse crescente. Com isso, a quantidade de trigo importada entre janeiro e junho somou 2,8 milhões de toneladas, contra 3,6 milhões no mesmo período do ano anterior, especialmente devido à diminuição do produto argentino.

Perspectivas e Preocupações

Embora parte do ano-safra 2026/27 ocorra em 2027, as projeções para a safra argentina são otimistas. Espera-se que o trigo retorne aos padrões de qualidade panificável que eram comuns antes da safra passada. O analista Élcio Bento comentou sobre a preocupação existente entre os moinhos brasileiros para o segundo semestre, uma vez que o trigo da nova safra da Argentina só será disponibilizado no final do ano. Isso demandará uma mistura entre grãos de qualidade inferior do país vizinho e grãos de qualidade superior ou importações de outras origens, que atualmente têm preços mais altos.

Bento destacou que, apesar dos preços relativamente mais elevados do trigo russo — em torno de R$1.591/tonelada —, eles continuam competitivos em comparação com os Estados Unidos, onde os preços variam entre R$1.809 (tipo soft) e R$2.048 (tipo hard). A Rússia, apesar de enfrentar dificuldades logísticas devido à guerra na Ucrânia, ainda se mostra competitiva no Nordeste do Brasil, onde não há restrições fitossanitárias significativas.

Portanto, enquanto o Brasil se prepara para essa nova safra de trigo e enfrenta desafios tanto na produção nacional quanto na dependência de importações, as estratégias para suprir a demanda e garantir a qualidade do trigo se tornam cada vez mais essenciais. As decisões tomadas agora podem gerar impacto significativo na indústria e na economia no longo prazo.