O grande desafio do governo Lula será estancar a sangria com o mercado financeiro. Essa avaliação é do cientista político e sócio da Arko Advice, Lucas de Aragão, em entrevista ao Hora H desta segunda-feira (26). Para ele, a recuperação da credibilidade econômica exigirá uma série de medidas que vão além da simples escolha de um nome para o Ministério da Fazenda.
“Acho que está entre o Geraldo Alckmin e o Rafael Fonteles, talvez com uma leve vantagem em direção ao Alckmin. Também não pode se descartar um nome do próprio mercado, apesar de achar que esse cenário é menos provável”, afirmou.
Credibilidade Econômica a ser Reconstruída em Etapas
Aragão destacou que a reconstrução da credibilidade com o mercado precisa ocorrer em etapas. Para ele, a escolha de um novo nome para a Fazenda seria apenas o primeiro passo. “Não tem bala de prata nessa reconstrução de credibilidade”, disse.
O especialista lembrou que tanto Fernando Haddad quanto Dario Durigan foram vistos como ministros que tiveram suas visões atropeladas pela política, especialmente pelo próprio Lula e pela Casa Civil. Houve tensões constantes entre a Fazenda e a Casa Civil ao longo do mandato. Para que a recuperação seja efetiva, seria necessário, além de um nome de credibilidade, uma mudança de postura do próprio Lula e um conjunto de propostas econômicas consistentes.
“Não vai adiantar um ministro da Fazenda que, individualmente, tenha boa vontade do mercado se ele não conseguir impor algumas agendas que são amargas e não conversam com as propostas de campanha”, alertou Aragão.
A Importância da Governabilidade
Aragão também chamou a atenção para a necessidade de o governo construir pontes com o Centrão para garantir governabilidade mínima. Segundo ele, ignorar esse bloco político seria uma estratégia “um pouco suicida” do ponto de vista das possibilidades legislativas. “O Centrão vai ser o fiador de qualquer mínima governabilidade desse governo”, afirmou.
O especialista citou a gestão de Jair Bolsonaro (PL) e a derrota de Lula na indicação de Jorge Messias ao STF para lembrar que governos que tentaram ignorar o Centrão enfrentaram consequências como falta de governabilidade e derrotas legislativas. Para Aragão, tanto na Câmara quanto no Senado, será necessário um nome que dialogue com esse bloco. “Alguns nomes fora do PT podem ajudar nesse diálogo”, acrescentou.
Um Caminho Complexo pela Frente
Neste contexto, fica evidente que a reconstrução da confiança não é apenas uma questão de política econômica, mas sim uma questão política mais ampla. O governo terá que lidar com desafios singulares e múltiplas interações entre as diferentes forças políticas. A habilidade em dialogar e negociar será essencial para garantir a aprovação de medidas que visam a estabilização da economia.
Além disso, a comunicação clara com o público e com o mercado é fundamental. Mensagens que apaziguem as preocupações dos investidores ajudarão a criar um ambiente mais favorável para a implementação de reformas. Assim, o diálogo não deve se restringir apenas ao âmbito político, mas também estender-se ao setor privado e à sociedade civil, que têm grande influência nas percepções sobre a política econômica.
Ademais, o que se percebe é que o governo de Lula terá que estar ciente dos erros de gestões passadas e, ao mesmo tempo, buscar um caminho que seja efetivo para preservar a confiança da população e do mercado em um cenário econômico que se mostra volátil.
A capacidade de equilibrar decisões difíceis, enquanto se mantém a base de apoio, será essencial para que o Brasil consiga avançar sem retrocessos. O próximo período se desenha como um verdadeiro teste de fogo para a habilidade política e econômica do governo, o que pode definir não apenas sua gestão, mas também seu legado.



