Não há racionalidade econômica em sanções dos EUA ao Canadá

Não há racionalidade econômica em sanções dos EUA ao Canadá

O especialista em relações internacionais do Berea College, Carlos Gustavo Poggio, avaliou recentemente, em entrevista ao WW, que as medidas tarifárias dos EUA contra o Canadá carecem de fundamentação econômica, geopolítica ou eleitoral. De acordo com Poggio, essa abordagem representa um erro estratégico considerável para a administração americana.

Para o professor, a lógica que normalmente guia as ações de países em suas interações internacionais não se aplica neste contexto. “No caso dessas ações dos Estados Unidos contra o Canadá, eu acho que a gente não consegue encontrar nenhuma racionalidade geopolítica, não há nenhuma racionalidade econômica — economicamente é um desastre —, e não há nenhuma racionalidade eleitoral”, explicou.

Consequências da Política Externa Americana

Poggio enfatiza que o impacto negativo sobre a imagem dos Estados Unidos no Canadá é significativo e duradouro. Ele cita uma pesquisa do Pew Research Center, que mostra que, em apenas três anos, a China passou a ser mais bem vista pelos canadenses do que os Estados Unidos, refletindo uma enorme mudança de percepção popular em relação ao gigante norte-americano.

Além das tarifas, Poggio alerta que as repercussões vão além do âmbito econômico, atingindo também dimensões políticas e simbólicas. Um exemplo concreto é o setor de bebidas alcoólicas, onde 11 das 13 províncias canadenses adotaram um boicote espontâneo a produtos americanos, incluindo o Bourbon, que tem um forte valor simbólico no Kentucky.

“Não há nenhum tipo de tarifa, mas há um boicote por parte dos próprios consumidores”, afirmou, ressaltando o alcance das consequências causadas pela postura de Donald Trump.

Aprovação Popular e o Desgaste Político nos EUA

Poggio destacou que Donald Trump não possui o apoio político necessário para manter essa posição hostil em relação ao Canadá. Ele observa que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, goza de cerca de 60% de aprovação, contrastando com os baixos índices de aceitação de Trump, que giram em torno de 30%.

O professor acredita que o público americano não vê com bons olhos uma disputa entre as duas nações. “Me parece que isso é um estrago muito grande e o Donald Trump não tem capital político para isso”, disse, enfatizando que a questão transcende o aspecto econômico, adentrando em um campo mais político.

Impactos Duradouros na Relação Bilateral

As tarifas e outros conflitos comerciais não têm apenas consequências imediatas. Poggio argumenta que, a longo prazo, essa tensão pode transformar a relação histórica e sólida entre Estados Unidos e Canadá em um vínculo conturbado. A normalização da animosidade pode ter efeitos negativos duradouros nas relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.

A percepção negativa que muitos canadenses agora têm em relação aos seus vizinhos do sul pode resultar em políticas de investimento menos favoráveis, bem como em ações de boicote mais intensas a produtos e serviços norte-americanos. Isso, por sua vez, pode afetar setores inteiros, desde alimentos até eletrônicos, onde o fluxo de produtos entre os países sempre foi substantivo.

Poggio conclui que a administração americana deve considerar as consequências de suas políticas, que não apenas afetam a economia, mas também a imagem dos EUA no exterior, especialmente em um contexto onde as relações podem ser ainda mais importantes em tempos de polarização política global.

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