Nas rodovias do futuro, a IA otimizará seu trajeto.

A confiança nas inovações rodoviárias é essencial para o sucesso do Free Flow. Nos últimos trinta anos, ao desenvolver tecnologias para infraestrutura, percebi que, assim como na indústria aeronáutica, o verdadeiro desafio está na confiança que os usuários têm nas soluções implementadas.

Quando trabalhei no desenvolvimento de sistemas para aeronaves militares, aprendi que a funcionalidade de um equipamento não é suficiente; o piloto precisa confiar plenamente em que a tecnologia funcionará em todas as condições possíveis. Essa analogia é relevante para as rodovias brasileiras, que estão passando por um grande ciclo de inovação.

O Brasil está investindo cerca de R$ 150 bilhões em concessões rodoviárias até 2026, segundo o Ministério dos Transportes. Esses investimentos não se limitam à construção de novos trechos e pontes, mas também à implementação de tecnologias inovadoras, como o Free Flow, que prometem transformar a experiência de viagem.

A Nova Realidade da Infraestrutura Rodoviária

Tradicionalmente, a qualidade de uma rodovia era avaliada com base em indicadores físicos, como a extensão duplicada. No entanto, estamos entrando em uma era onde a eficiência da infraestrutura será julgada pela tecnologia embarcada capaz de operá-la. Em outras palavras, os algoritmos que gerenciam essas inovações se tornarão os ativos mais valiosos das futuras concessões.

Entretanto, o sucesso do Free Flow no Brasil não depende apenas da tecnologia, mas também da forma como ela é percebida pelo usuário. O sistema enfrenta desafios relacionados à compreensão e aceitação por parte dos motoristas, que precisam se sentir seguros e informados sobre a nova forma de cobrança que o Free Flow representa. A transição de um sistema físico com cancelas para um totalmente digital requer uma abordagem cuidadosa para construir essa confiança.

Integração e Acuracidade como Chaves do Sucesso

Embora o conceito do Free Flow aprecie a tecnologia, a verdadeira construção de um ecossistema rodoviário digital de sucesso exige integração. Isso envolve a colaboração entre concessionárias, órgãos reguladores e diferentes métodos de pagamento. O objetivo é estabelecer uma plataforma digital simples, transparente e interoperável para os usuários.

Fundamental para essa integração será a acuracidade dos algoritmos que operam essas tecnologias. No Brasil, onde as condições de tráfego são diversas e complexas, o desafio será desenvolver uma inteligência artificial robusta o suficiente para interpretar cenários complicados. Uma identificação precisa dos veículos será decisiva, pois um erro na cobrança pode comprometer a confiança do motorista.

A precisão deixará de ser um indicador técnico para se tornar um ativo estratégico. O aumento da acuracidade permitirá a redução de custos operacionais e de possíveis contestações judiciais, além de melhorar a experiência geral do usuário. Portanto, as concessionárias que se comprometerem com a precisão nos pagamentos estarão um passo à frente na construção de um sistema confiável.

A Importância da Inteligência Adaptada à Realidade Brasileira

Outro ponto crítico a ser considerado é a origem da tecnologia utilizada. Por muito tempo, acreditou-se que as soluções mais sofisticadas precisavam ser importadas. Contudo, para a inteligência artificial, a integração de dados locais é crucial. Uma IA treinada com dados brasileiros compreenderá melhor as particularidades do trânsito local, como tipos de veículos, condições climáticas e comportamentos comuns.

Essa abordagem não se trata apenas de construir tecnologia nacional; é fundamental oferecer uma inteligência que se adapte às nuances do tráfego brasileiro. O sucesso do Free Flow dependerá dessa capacidade de personalização e acuracidade, que permitirá uma operação mais eficiente e confiável.

No futuro, a preocupação primária dos motoristas não será sobre quem desenvolveu os pórticos do Free Flow, mas se eles podem confiar na cobrança que estão recebendo. A liderança neste novo cenário não será apenas sobre tecnologias, mas sobre a qualidade da experiência do usuário e a confiança depositada nas operações realizadas.

*Ailton Queiroga é engenheiro e presidente da COMPSIS